Para analisarmos o meu ponto de vista, vejamos a rotina de uma pessoa normal, que trabalha, assiste televisão, lê jornal e revistas, ouve musicas, etc, a Senhora Jurema:
Acorda por volta das 7 horas da manhã, liga a televisão, e o jornal do dia, em meio a noticias rápidas sobre economia, já mostra em primeira mão os acidentes da madrugada, alguns com vários mortos e feridos e grandes congestionamentos. O âncora descreve o assunto ainda emitindo a opinião pessoal e saindo um pouco da linguagem formal, dá um toque especial porém sutil de sensacionalismo.
Tentando não se aborrecer logo cedo, nossa matutina espectadora muda de canal para uma emissora, que infelizmente é, digamos, mais teatral. O jornalista só não está gritando e chorando no local pois não possui DRT (sua licença que o dá direito de ser ator).
Mas mesmo assim, pede para que a 'produção' fique repetindo e repetindo a foto da criança que morreu num desastre, ou do casal que foi morto pelo traficante.
Cansada de olhar para a caixinha de pandora que repousa inofensiva em cima de sua geladeira, desliga sua televisão e vai trabalhar, pensando em como deve estar sendo terrível para aquela mãe que não parava de chorar e arrancava tufos de cabelo durante a exibição das imagens.
Pega seu ônibus, lembrando sempre de que a reportagem que viu ontem na televisão avisava para que ela tivesse cuidado para não ser assaltada em pontos de ônibus, que pelo que foi confirmado pela matéria, era a nova moda dos assaltantes.
Chega em seu trabalho se sentindo esgotada, mas nem cogita a possibilidade de que logo cedo já havia recebido sua carga de stress desnecessária.
Digamos que jurema trabalhe como secretária, por exemplo. Às vezes jurema folheia uma revista ou outra enquanto o telefone não toca, ou enquanto não precisa atualizar a agenda.
A capa já vem escrita em letras garrafais: "Uma Vergonha" ou um bem dramático "Até Quando?" e colocando a foto escancarada de vários corpos cobertos com panos e rostos de bandidos.
Jurema pula para outras matérias tentando mudar o rumo de seus pensamentos, que já andam negativos demais.
Larga a revista, trabalha mais um pouco até a hora do almoço, com a imagem do desabamento onde a maioria das vítimas morreu, e se lembra da indignação do apresentador que suava, gesticulava e falava alto na sua atuação inflamada, no programa matutino.
E agora essas imagens na revista.
"Meu deus, onde este mundo vai parar?", pensa a coitada...
Almoça, volta para o trabalho e lá fica até umas 6 da tarde, cercada pelas revistas que denunciam corrupção, lavagem de dinheiro, assaltos e assassinatos, todas com capas fotomontadas exclusivamente para chamar a atenção.
Volta de ônibus novamente, e dessa vez apressa o passo pois já está escurecendo e 'pelo que já ouviu', é por volta das 18:30 que os estupradores mais preferem atacar.
Chega em casa, senta no sofá e dá graças a Deus que amanhã vai ser a sua folga.
Toma um banho, come alguma coisa e liga a televisão para assistir ao programa de denúncias da tarde, depois sua novela e logo após, um jornal.
O programa de denúncias possui o velho conhecido apresentador vestido de te no e gravata num estúdio pequeno que fica repetindo diversas vezes a mesma matéria e colocando diversas vezes a mesma imagem no ar, da vitima, e do agressor. E aquele homem de terno sai um pouco de seu controle, transpira, briga com a 'produção'.
Jurema na verdade já levantou faz tempo do sofá, foi para a cozinha tomar um refresco, e deixar o prato e os talheres em cima da pia. Mas a televisão continua lá, berrando "Assassino! Desgraçado!".
Começou a novela, e nossa amiga sentou-se novamente para agora acompanhar a saga dos mocinhos, e por incrivel que pareça, o bandido está reproduzindo na novela aquele crime que está em moda no jornal.
Começa outro jornal, as mesmas noticias desde o primeiro jornal da manhã, agora comentadas por um cronista famoso, para que Jurema sinta que até o Doutor está se sentindo atingido por tanta 'desgraça'.
Jurema, vai dormir cansada.
Folga no dia seguinte, mas por hábito, acaba acordando cedo novamente.
O mesmo jornal, as mesmas desgraças.
Mas neste dia foi pior, pois por ter pego uma gripe, ficou o dia todo em casa, assistindo programas para donas de casa durante o dia todo.
E em todos eles, um novo agressor, seja ele uma chuva forte, um drogado, um assassino, um estudante de classe média, uma garota bonita, um trem, um caminhão em alta velocidade...
Tudo com uma grande pitada se sensacionalismo, com suspenses que duram o programa todo, com pessoas que estão tendo sua desgraça exposta como se fosse normal, mas para disfarçar que não é, os apresentadores pintam, bordam e tripudiam com ar de pena e indiguinação a situação daquelas pessoas.
Será que Jurema, após tanto tempo vivendo numa rotina que é a da maioria da população brasileira, onde os cidadãos assistem às mesmas emissoras e lêem as mesmas revistas, um dia não ficará mais estressada do que deveria, não desenvolverá um medo muito grande, podendo chegar até a uma síndrome do Pânico, muito comum a partir da metade do século XX, coincidentemente, quando a televisão começou a disseminar uma imagem sensacionalista da violência?
Essa para mim é a pergunta que não quer calar.
Para quem nunca assistiu Laranja Mecânica, agora vem a comparação:
O personagem principal é submetido a horas e horas de cenas intensas de violência.
No nosso caso, nos nem sabemos que estamos sendo expostos, apenas assimilamos aquilo como noticias normais, porém, isso nos faz mal a curto e longo prazo e, coincidentemente, a melhor maneira de se controlar uma população é o medo.
Sem esquecer que muitas das pessoas que estão associadas à mídia, possuem ou já possuíram contato com pessoas que ganham a vida através do submundo de drogas, armas, lavagem de dinheiro, etc., como políticos, por exemplo.
Seria tudo isso um grande jogo de interesses em cima dos menos favorecidos?
Pois se formos pensar bem, esse teatrinho sensacionalista que vemos todos os dias, para pessoas um pouco mais criticas, faz com que percamos totalmente a visão séria sobre esses casos. Porém para pessoas mais simples, não existe sequer um parâmetro para avaliar que a mídia os está manipulando e emburrecendo.
Se na verdade esses casos fossem levados a sério, não haveria essa encenação toda de "denuncia", haveria a exposição do fato, e medidas firmes para que não houvesse os famosos desabamentos, crimes, assaltos, mortes em festas adolescentes, policiais corruptos, entre tantas outras coisas que presenciamos em nosso dia-a-dia, pela televisão.
O verdadeiro reflexo desse teatro é que além de impor uma ditadura do medo na população como um todo, acaba provando que se dá mais valor para o cão que ladra do que para o cão que finalmente morde e inconscientemente, não vamos nunca levar autoridades, mídia e líderes a sério.









